O aparelho e os canais
O que fazem os quatro comandos que interessam, onde vai a antena, e que canais existem para quê.
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O marítimo é rádio de muito alta frequência, e isso tem uma consequência que convém perceber antes de tudo o resto: o alcance é à vista. As ondas não acompanham a curvatura da Terra nem atravessam terra firme. O que manda no alcance é a altura das antenas — a tua e a de quem te ouve.
Daí a primeira regra prática, que não é sobre o rádio mas sobre onde ele acaba: a antena vai no ponto mais alto da embarcação, tipicamente no topo do mastro. Num veleiro isto é uma vantagem enorme sobre um barco a motor do mesmo tamanho.
Os quatro comandos que interessam
Um VHF tem muitos botões e tu só precisas de dominar quatro:
- Volume — regula a intensidade do som. É só isso.
- (silenciador) — corta o chiado de fundo quando não há ninguém a falar. Roda-o até o ruído desaparecer, e nem um bocadinho mais: apertado de mais, deixas de ouvir as chamadas fracas — que são precisamente as que vêm de longe, ou de quem está em apuros.
- Potência — alta ou baixa (tipicamente 25 W e 1 W num aparelho fixo). Usa-se a mínima que chegue, para não entupir o canal a quem está longe. Em socorro, sempre a máxima.
- (dual watch) — vigia dois canais ao mesmo tempo, alternando depressa entre eles. Serve para ficares no canal de trabalho sem largar o 16.
Os dois canais que tens de saber de cor
Há dezenas de canais no VHF marítimo. Para a náutica de recreio, dois fazem noventa por cento do trabalho — e é neles que vale a pena gastar a memória.
Canal 16 — o canal de todos
O , em 156,800 MHz, é o canal internacional de socorro, urgência, segurança e chamada. Duas consequências práticas:
- Ficas em escuta nele sempre que o rádio não estiver a ser usado para outra coisa. É a razão de ele existir: alguém em apuros grita ali, e conta que haja quem esteja a ouvir.
- Não se conversa no 16. Chama-se, combina-se outro canal, e sai-se de lá. Uma conversa de dois minutos sobre um lugar de marina é dois minutos em que um pedido de socorro não passa.
Canal 9 — o canal do recreio
O canal 9 é o canal de chamada da náutica de recreio: é por ali que se chama uma marina, se pede um lugar, ou se fala com outro barco de recreio. Existe precisamente para desafogar o 16 do tráfego que não é de emergência.
Na prática, num porto de recreio, o 9 é o canal onde vais passar a maior parte do tempo de rádio.
Uma ressalva honesta: esta atribuição vem do material de formação e das práticas correntes, e não a conseguimos confirmar num documento oficial publicado. As atribuições nacionais de canais variam de país para país, e cada marina pode ter o seu. Confirma na ANACOM, no roteiro da zona e no guia da marina — sobretudo se navegares para fora de Portugal.
Quando é que se muda do 16 para outro canal
Assim que a chamada estiver estabelecida e se souber com quem se fala. A regra é curta:
Chama-se no 16, combina-se o canal, muda-se para lá. O 16 fica livre outra vez.
Mais em pormenor:
- Chamas no 16 — nome de quem chamas três vezes, «aqui», o teu nome três vezes, «escuto».
- Quem é chamado indica o canal. Não és tu que impões: pedes, e a marina ou a estação diz para onde passar. Se fores tu a propor, propões e esperas confirmação.
- Confirmas e mudas. «Passo a canal nove, escuto.» E mudas mesmo.
- A conversa toda acontece no canal de trabalho, não no 16.
- No fim, voltas ao 16 e ficas em escuta.
Se já souberes o canal da estação — e as marinas publicam-no —, chama diretamente nesse canal e poupa o 16 por completo.
Os outros canais que vais ouvir nomear
| Canal | Frequência | Para que serve |
|---|---|---|
| 70 | 156,525 MHz | Só chamada seletiva digital (DSC). Nunca se fala neste canal |
| 13 | 156,650 MHz | Segurança da navegação entre embarcações — ponte a ponte |
| 06 | 156,300 MHz | Entre embarcações, incluindo coordenação de busca e salvamento |
Quem manda no rádio
A resposta curta é: o patrão da embarcação. E não é uma questão de hierarquia a bordo — é como o serviço de radiocomunicações está organizado internacionalmente.
- A estação de rádio da embarcação funciona sob a autoridade suprema de quem comanda. É o patrão que responde por tudo o que sai dali: chamadas indevidas, alarmes falsos, uso do 16 para conversa.
- Quem opera o rádio tem de ter certificado de operador. Podes delegar a chamada em quem estiver mais à mão — e numa emergência é o que se faz — mas a responsabilidade continua a ser de quem comanda.
- A licença é da embarcação, não da pessoa. Anda a bordo e exibe-se às autoridades quando pedida.
Na prática, isto traduz-se em três deveres teus como patrão: manter a escuta no 16, garantir que o rádio funciona e que o MMSI está certo, e mostrar a quem vai a bordo onde fica o botão de socorro — incluindo a quem nunca navegou.
A referência exata do artigo do Regulamento das Radiocomunicações da UIT, e o certificado que a lei portuguesa exige ao operador de recreio, devem ser confirmados na ANACOM antes de serem decorados para exame.
DSC, MMSI e a licença de estação
Um VHF moderno tem — chamada seletiva digital. Debaixo de uma tampa vermelha há um botão que, premido alguns segundos, emite um alerta automático de socorro no canal 70, com a identificação da embarcação e, se houver GPS ligado, a posição. É o gesto mais eficaz que existe a bordo de um barco de recreio.
Para isso funcionar, o rádio tem de ter o programado — o número de nove dígitos que identifica a estação. O MMSI e o indicativo de chamada são atribuídos com a licença de estação da embarcação, que tem de existir a bordo e ser exibida às autoridades quando pedida.
A entidade que atribui a licença e o MMSI, os prazos de validade e o certificado de operador exigido a quem usa o rádio têm de ser confirmados na ANACOM e na DGRM — as competências mudaram de organismo ao longo dos anos e a legislação foi revista.
Antes de largar
- Rádio ligado no canal 16, em escuta
- Squelch ajustado ao ponto em que o ruído acabou de desaparecer
- MMSI programado e correto
- GPS ligado ao rádio, para o DSC transmitir a posição
- VHF portátil carregado, no saco de emergência
- Licença de estação e certificados a bordo
Fontes
- UIT — Regulamento das Radiocomunicações, Apêndice 18 (canais VHF do serviço móvel marítimo)
- UIT — Recomendação ITU-R M.541 (procedimentos de chamada seletiva digital)
- ANACOM — serviço móvel marítimo, licenciamento de estações de embarcação
- Material de formação de Patrão Local (AVELA) — factos nacionais assinalados para confirmação
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